Estado de espírito
Procrastinar: o que isso diz, sem moralismos
Raramente se adia por preguiça. Adia-se o que é vago, o que dá medo, ou o que não tem espaço no dia.
O discurso habitual sobre a procrastinação é moralista: seria preciso mais disciplina, menos ecrãs, sacudir-se um pouco. É ao mesmo tempo falso e contraproducente — ralhar contigo própria acrescenta desagrado a uma tarefa já desagradável, o que a torna ainda mais fácil de evitar.
Os trabalhos de investigação (nomeadamente os de Tim Pychyl e Fuschia Sirois) descrevem outra coisa: uma forma de regular uma emoção. Não se foge do trabalho, foge-se do que se sente ao começá-lo. Tédio, angústia de fazer mal, sensação de não saber por onde começar.
Três causas, três saídas
É vago. O cérebro não sabe o que fazer, por isso não faz nada. A saída é mecânica: dividir até obter uma primeira etapa ridiculamente pequena. «Abrir a pasta», «encontrar o número».
Dá medo. Uma chamada desagradável, um retorno que se receia, uma tarefa em que se arrisca descobrir que se enganou. A saída não é dividi-la — é dar-lhe um momento preciso e curto, cedo no dia, com algo agradável logo a seguir.
Não há espaço. Por vezes a tarefa não é vaga nem assustadora: o dia está simplesmente cheio, e ela não cabe. Não é procrastinação, é aritmética. A saída é tirar outra coisa, ou aceitar que seja na semana seguinte.
O que ajuda, sem disciplina
Cinco minutos, a sério. Dar-te cinco minutos e autorizares-te a parar depois. Funciona porque a parte penosa é quase sempre o arranque. Não é um truque: se parares mesmo aos cinco minutos, não faz mal.
Tornar o início visível. Pôr a pasta em cima da mesa, deixar o documento aberto, pousar os ténis junto à porta. Subestima-se o quão fácil é adiar uma tarefa invisível.
Baixar a exigência. Muitas coisas não são começadas porque se quer fazê-las bem. Um e-mail correto enviado hoje vale mais do que um e-mail perfeito nunca escrito.
Tirar o contador. Se a tua ferramenta te lembra há quantos dias andas a adiar, ela acrescenta exatamente a emoção de que estavas a fugir. É também por isso que o Doui não tem sequências, nem pontuação, nem vermelho: a lista tem de continuar a ser um sítio que se pode reabrir.
E quando isso dura
Há uma diferença entre adiar a declaração de impostos três semanas e não conseguir abrir a correspondência durante seis meses. Quando isso afeta coisas importantes, durante muito tempo, com vergonha e consequências reais, já não é uma questão de método. Falar com um médico ou um psicólogo é mais útil do que qualquer lista — e é também uma forma de te tratares corretamente.
Perguntas frequentes
A procrastinação é preguiça?
Não. A investigação descreve-a antes como uma forma de fugir a uma emoção desagradável ligada à tarefa — o tédio, a angústia, a dúvida. É por isso que ralhar contigo própria não funciona: acrescenta mais uma emoção desagradável.
E o método Pomodoro?
Ajuda muito quando o problema é o arranque: vinte e cinco minutos é curto, por isso é aceitável. Não ajuda quando a tarefa está mal definida — é preciso primeiro dividi-la.
Quando é preciso preocupar-se?
Quando afeta coisas importantes durante meses, com repercussões no trabalho, na saúde ou no estado de espírito. Nessa altura, já não é uma questão de organização, e falar com um profissional é mais útil do que qualquer método.
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